terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pai Zé Simão e as Olimpíadas no Rio

Previsões de Pai José Simão para as Olímpíadas no Rio - 2016

1. ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro público. Ninguém será preso ou indiciado.

2. Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: vou pegar na tua tocha e você põe na minha pira.

3. Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando “barão de coubertin” com “sol da manhã”. Gilberto Gil virá no último carro alegórico vestido de lamê dourado representando o “espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitoria”.

4. Haverá um concurso para nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como: “Zé do Olimpo”, “Chico Tochinha” e “Kaíque Maratoninha”.

5. Luciano Huck vai eleger a Musa dos jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.


Abertura dos jogos

1. A tocha olímpica será roubada ao passar pela baixada fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência para um carnavalesco da Beija flor.

2. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana para comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho será impedido de ficar a menos de 500 metros da tocha.

3. Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê GALVÃO FILMA NÓIS, 100% FAVELA DO RATO MOLHADO.

4. Pelé vai errar o nome do presidente do COI, discursar em um inglês de merda elogiando o povo carioca e, ao final, vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.

5. Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o “Hino das Olimpíadas” composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para aparecer mais na TV.

6. O Hino Nacional Brasileiro será entoado a capella por uma arrependida Vanuza, que jura que "não bota uma gota de álcool na boca desde a última copa". A platéia vai errar a letra, em homenagem a ela, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.

7. Uma brasileira vai ser filmada varias vezes com um top amarelo, um shortinho verde e a bandeira dos jogos pintada na cara. Ela posará para a Playboy sem o top e sem o shortinho e com a bandeira pintada na bunda.

8. Por falta de gás na última hora, já que a cerimônia só foi ensaiada durante a madrugada, a pira não vai funcionar. Zeca Pagodinho será o substituto temporário já que a Brahma é um dos patrocinadores. Em entrevista ao Fantástico ele dirá que não se lembra direito do fato.

9. Setenta e quatro passistas de fio-dental vão iniciar a cerimônia mostrando o legado cultural do Rio ao mundo: a bala perdida, o trafico, o funk, o sequestro-relâmpago e a favela.

10. Durante os jogos de tênis a platéia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silencio 774 vezes. Como ele pedirá em inglês ninguém vai entender e vão continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.

11. Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.

12. Adriane Galisteu posará para a capa de CARAS ao lado do grande amor da sua vida, um executivo do COB.

13. Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do maracanã por “dois real”.



Durante os jogos

1. Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.

2. Uma modelo-manequim-piranha-atriz-exBBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.

3. No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 64.

4. Faltando 3 dias para o fim dos jogos, o Brasil terá 3 medalhas de bronze e 1 de ouro, esta ganha por atletas desconhecidos no esporte “caiaque em dupla”. Eles vão ser idolatrados por 15 minutos (somando todas as emissoras abertas e a cabo) como exemplos de força e determinação. A Hebe vai dizer que eles são “uma gracinha” ao posarem mordendo a medalha, e nunca mais se ouvirá deles.

5. A seleção brasileira de futebol comanda por Ronaldinho Gaucho vai chegar como favorita. Passara fácil pela primeira fase e entrará de salto alto na fase final, perdendo para seleção de Sumatra.

6. A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.

7. Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.

8. Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 57º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra onde se lê: JARDIM MATILDE NA VEIA.

9. Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no inicio da competição. Suas provas serão reprisadas em 'slow motion' e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.

Após os jogos


1. Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô para pagar as despesas que teve para estar nos jogos e por não obter patrocínio.


2. Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são exemplos no profissional tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos, e outras besteiras.

3. No início do ano seguinte, vários bebês de olhos azuis virão ao mundo e as filas para embarque nos voos para a Itália, Portugal e Alemanha serão intermináveis, com mães "ofendidas", segurando seus rebentos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Caros leitores,

recebi este texto e não pude deixar de colocá-lo aqui. Boa parte do que penso tem-se claro aqui. Desde já compartilho com todos a sensação de alívio e conforto ao ver que há aqueles capazes do "ver além" e da compreensão de que a pesquisa acadêmica e científica tem necessariamente de se propor desafios e se questionar com frequência "obsessiva". De outra forma estaríamos fazendo "copy-paste bibliográfico" mas, nunca, ciência. Bom proveito!

Doença social


O professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Jessé Souza é um dos mais destacados pensadores da realidade brasileira contemporânea. Com uma abordagem crítica dos processos de produção e reprodução das classes sociais no país, ele aponta que o debate da desigualdade social, embora tenha pautado as últimas eleições presidenciais, ainda não chegou ao ponto central da questão: “A fabricação diferencial de indivíduos pelo pertencimento a distintas classes sociais”. Em entrevista ao Pensar, o pesquisador fala de dois de seus livros mais recentes: A ralé do Brasil – Quem é e como vive e o Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?, ambos publicados pela Editora UFMG.

Uma das teses centrais defendidas por ele é que o privilégio positivo do “talento inato” das classes alta e média é transformado em privilégio negativo de toda uma classe social que se produz e reproduz como classe de indivíduos com um “estigma inato”. As reflexões demonstram que está em curso uma luta de classes, menos evidente do que a clássica apontada por marxistas, mas não menos intensa. O pesquisador ainda questiona o status de classe média dado aos brasileiros que teriam tido mobilidade social nos últimos anos.

A obra de Jessé Souza tem algumas características distintivas. Em primeiro lugar, o trabalho coletivo em pesquisas a partir de temas comuns, que ganham abordagens específicas em estudos de campo. É o caso de A ralé brasileira – Quem é e como vive, que traz trabalhos de 12 autores, a partir da inspiração da pesquisa sobre a desigualdade brasileira. A obra traz ensaios sobre o senso comum e justificação da desigualdade, a tese do patrimonialismo, o drama social das empregadas domésticas, o tema do amor e erotismo entre os marginalizados, o estigma da prostituta pobre, delinquência e religiões envangélicas, educação e saúde da ralé e racismo. O mesmo trabalho coletivo pode ser identificado em A invisibilidade da desigualdade brasileira.

Os batalhadores brasileiros, seu livro mais recente, também produzido de forma coordenada com outros pesquisadores, além da proposta ousada de revisão conceitual em torno da expressão aparentemente universal “classe média”, escolhe atores e espaços sociais específicos para fundamentar, na observação cuidadosa, a realização do argumento central da pesquisa. Entre os trabalhos, estão estudos sobre os empreendedores rurais, os feirantes e os operadores de telemarketing. O livro traz ainda ensaios sobre a economia política do batalhador e acerca de sua religião, na busca de um encontro entre classe e crença, tendo como alvo o neopentecostalismo.

Outro aspecto que parece unificar a bibliografia do autor, que já soma 21 livros em português, inglês e alemão, é a opção pelo decifração de nova realidade social e política. Suas obras e pesquisas vão contra a corrente hegemônica, com determinação em afiar o olhar para os novos atores e personagens da sociedade contemporânea. É preocupação que ganha em seus livros, desde o título, o explícito projeto de denúncia e compreensão, a partir do mergulho em busca do rompimento com os véus da invisibilidade, desigualdade e subcidadania, colocando em evidência os batalhadores e a ralé. Quem acha que tudo se resume aos problemas definidos pela economia vai perceber que há uma rota a ser reinventada. Para um novo mundo, um novo mapa. Seguindo a lição do economista Celso Furtado, Jessé Souza sabe que a doença mais grave do Brasil não é econômica, mas social.


ENTREVISTA COM JESSÉ SOUZA

O senhor avalia que o discurso das ciências sociais está tomado por um economicismo que, de certa forma, mascara a luta de classe contemporânea que se dá no cotidiano. O senhor considera que o país está avançando no debate de como superar as desigualdades sociais?

O “economicismo” é, na verdade, apenas parte de um processo de violência simbólica que fragmenta a realidade de tal modo que se torna impossível estabelecer uma hierarquia clara das questões mais importantes. Como em sociedades modernas e formalmente “democráticas” a censura é inadmissível, então a dominação social que tende a perpetuar todos os privilégios injustos tem que criar “falsas questões”, todas tratadas superficialmente, para que as questões realmente fundamentais jamais venham à tona. Os homens e mulheres comuns – todos nós – têm que ser mantidos usando apenas uma pequena parte de sua capacidade de reflexão para que a sociedade funcione de modo tão injusto como a nossa. Um bom exemplo basta. Quando se fala de classes sociais no Brasil, a classe é sempre ligada à renda das pessoas. Não é uma mentira completa, porque existe uma diferença também de renda entre as classes. Mas, ao se concentrar num vínculo arbitrário e secundário, essa associação, feita por quase todos, termina por encobrir o principal. Com isso, a causa última dos privilégios injustos nunca pode ser efetivamente percebida. Podem-se criar “bodes expiatórios” e falsas explicações de fio a pavio. É disso que os privilégios precisam para se perpetuar. A fabricação diferencial de indivíduos, pelo pertencimento a distintas classes sociais, nunca pode vir à tona, posto que ela mostra a mentira da meritocracia como “milagre do talento individual”, enquanto justificativa da desigualdade. Tem-se, portanto, que arranjar um jeito de fazer de conta que se fala de classes para não falar realmente delas. A associação de classe a renda serve precisamente a isso.

Como isso se dá na prática, no cotidiano da vida social?

Tomemos um professor universitário iniciante que ganhe R$ 6 mil. Tomemos agora um trabalhador qualificado que monitora os robôs da Fiat, em Minas Gerais, que também ganhe algo em torno de R$ 6 mil mensais. Todas as escolhas dessas pessoas vão ser, com muita probabilidade, distintas, desde a mulher que se escolhe, os amigos, o tempo de lazer, as roupas que se compram, o padrão de consumo, os livros que se leem etc. Quando muito, essas pessoas vão poder conversar sobre futebol entre si. Qual o sentido de dizer que essas pessoas são da mesma classe porque ganham um salário semelhante? Ajuda a nossa compreensão de alguma delas estabelecer esse tipo de relação? O que esta concepção dominante sobre as classes em todas as ciências hegemônicas e em toda a esfera pública dos jornais e das TVs permite é “esquecer” e relegar às sombras o principal: que as classes sociais são formadas por “culturas de classe” muito diferentes entre si. Não existe “o” brasileiro, nem “a” mulher. É o pertencimento de classe que permite qualificar e compreender as pessoas na sua diferença. Vimos no nosso estudo sobre a ralé – termo provocativo em um país que nega e maquia todos os seus conflitos – que os filhos dessa classe não aprendem, por falta de estímulos, por exemplo, a se concentrar em sala de aula. Todos tinham escola, mas a maioria fitava o quadro-negro por horas sem nada aprender. Num lar de classe média, a criança vê o pai lendo jornal, a mãe contando histórias cheias de imaginação antes de dormir, um tio é admirado porque sabe várias línguas. Como nós nos construímos como gente, antes de tudo afetiva e emocionalmente, ou seja, aprendendo a imitar aquilo e a quem amamos, o filho da classe média já chega como “vencedor” à escola aos 5 ou 6 anos, porque incorporou ou está em vias de incorporar todos os pressupostos do aprendizado, como disciplina, capacidade de concentração e pensamento prospectivo. O filho da ralé que brinca com o pai com o carrinho de mão de pedreiro só aprende a ter as virtudes manuais do faz-tudo desqualificado dessa classe. As capacidades que permitem incorporar o conhecimento ou o “capital cultural” não são, portanto, “naturais”, como se pensa.

Qual impacto essa diferença terá para a vida dessas crianças?

Existem classes que “possuem” futuro, porque planejam o futuro e o percebem como mais importante que o presente (pensamento prospectivo). Existem classes, por outro lado, literalmente “sem futuro”, porque têm que se concentrar na vida cotidiana pela sobrevivência e são engolidas pelo “aqui e agora”. As diversas classes criam pessoas muito diferencialmente aparelhadas para enfrentar o mundo. Perceber a formação diferencial de tipos humanos a partir do pertencimento às culturas – ou seja, disposições de comportamento, hábitos e conjunto de capacidades emocionais muito distintas – de classes diferentes significa nada mais nada menos do que jogar por terra a legitimação fundamental das sociedades modernas: a ideia da meritocracia baseada na ilusão do mérito individual. Ora, se as capacidades diferenciais dos indivíduos são constituídas “socialmente” a partir de privilégios de nascimento – afinal ninguém escolhe a classe em que vai nascer –, como falar de “mérito individual”? Quando se percebem as classes economicamente, pelo salário, pelo resultado do processo e esquecendo, portanto, a “gênese social das diferenças individuais”, o que se faz é encobrir e justificar com recursos pseudocientíficos um crime social: o do abandono, no caso brasileiro, já secular de dezenas de milhões de pessoas sem culpa na própria miséria, que foi socialmente construída e legitimada.


Para Jessé Souza o pensamento acadêmico e a opinião pública caminham para criar falsas oposições, que enfraquecem a dimensão pública em nome de interesses econômicos
Há um consenso construído historicamente na universidade brasileira, fruto dos grande nomes da nossa inteligência sociológica e política, que parece diagnosticar todas as nossas mazelas sociais e econômicas a partir da noção de patrimonialismo. Para Jessé Souza, trata-se de afirmação incorreta, ideológica e perigosa, que acabou por gerar uma desconfiança sobre a ação do Estado e uma mitificação do mercado como instância de liberdade. Sem medo de enfrentar consensos, Jessé vai além e acusa parte da esquerda como responsável pelo reforço do nosso conservadorismo. “A nossa esquerda hegemônica é politicamente correta e, na prática, tão ou mais insidiosa e certamente muito mais incompetente que a direita”, afirma Jessé Souza.

Se a corrupção na política não é a maior causa das desigualdades sociais, é certo que muitos recursos públicos que poderiam ser investidos em áreas como saúde e educação se perdem. A corrupção na política não se ampara também nessa luta de classes que o senhor aponta?

Um debate sóbrio acerca do tema da corrupção teria que admitir dois pressupostos: o primeiro é que a corrupção – pensada como vantagem indevida em um contexto de presumida igualdade – existe em todo lugar do mundo e em qualquer esfera da vida. O segundo é que, como qualquer outro ilícito, deveria ser julgado com base em provas efetivas e obedecer a todas as garantias legais para a condenação ou absolvição no caso concreto individual. Assim, em uma sociedade madura, a corrupção é da alçada da Justiça como qualquer outro ilícito. O problema entre nós é que a corrupção é percebida como da alçada da política, pior, da manipulação política. Como essa manipulação é construída? A corrupção, entre nós, tem um lugar privilegiado: o Estado. Isso é mentira pura e simples. Não chega sequer a ser uma meia verdade. Existe tanto ou mais corrupção no mercado, que nunca é percebida enquanto tal. Com os financistas internacionais, que, com fraudes e manipulações contábeis, arrasam países inteiros, como aconteceu com a Argentina ou recentemente com a Grécia para faturar bilhões, não se fala de corrupção e ainda são admirados. Mas entre nós a cegueira é ainda maior. Quando um grande empresário alicia funcionários do Estado para deter informações privilegiadas, por exemplo, sobre poços de petróleo que o permitem faturar bilhões do dia para a noite, não é tido como corrupto, mas como gênio das finanças.

Como se explica tamanha seletividade e cegueira?

Entre nós a escolha seletiva do Estado como único lugar da corrupção teve primeiro o carimbo do prestígio científico. Foi Sérgio Buarque – lido até hoje em nossas universidades sem qualquer crítica – quem criou o tema do patrimonialismo estatal como característica singular brasileira. A partir dele temos Raymundo Faoro, FHC, Simon Schwartsman, Roberto DaMatta e a maioria da inteligência brasileira, que continua usando desse conceito como o mais importante para definir e interpretar o Brasil. As ideias dos intelectuais são muito importantes, porque são elas que constroem e legitimam nossa ação no mundo. Mas as ideias dos intelectuais só são eficazes para guiar e comandar o mundo quando elas se ligam a poderosos interesses econômicos e políticos. Minha tese, que expus em todo o detalhe na primeira parte do livro A ralé brasileira: quem é e como vive, é que foram os interesses econômicos do nascente capital industrial paulista na década de 1930 e depois do capital financeiro nacional e internacional, conjugados a partir dos anos 70, o fundamento real para tamanha seletividade e miopia. A causa é simples e facilmente compreensível para qualquer um. Essas são as classes que efetivamente ganham e muito quando se acredita que o Estado é sempre ineficiente e corrupto e o mercado sempre virtuoso. Pode-se sempre, para citar um exemplo da década de 90, sucatear as universidades federais e depois dizer que o Estado não pode nem deve cuidar da educação pública superior. Isso abre espaço para diminuir a atividade do Estado ao mínimo e o espaço do lucro privado ao máximo mesmo em esferas como saúde e educação, cujo acesso não deveria depender da sorte de ter nascido na família certa.

Portanto, a corrupção não é privilégio do Estado, está também do mercado…
Mas a defesa do lucro exorbitante de alguns poucos é um interesse tão particular que não pode ser assumido de público. Ele tem que se travestir de interesse geral, no nosso caso, o interesse geral no combate à corrupção sempre e somente estatal. Assim, todos os autores que defendem essa tese – alguns dos maiores e dos mais eminentes de nossa inteligência – gostam sempre de “tirar onda” de pensadores críticos, quando são, na verdade, os defensores dos interesses mais particulares e menos generosos da sociedade brasileira. Apenas porque a nossa atenção está concentrada nesse engodo, o PIB brasileiro pode ser tranquilamente repartido em quase 70% para quem recebe juros e lucros e apenas pouco mais de 30% para todos os outros pobres mortais que vivem de salários. Nas sociais-democracias europeias essa relação é inversa. A nossa manipulação política do eterno bode expiatório do Estado patrimonial e ineficiente vendido, na nossa esfera pública unidimensional e sem pluralidade, de modo infantil e falso, como oposto a um mercado que só é virtude, permite que um capitalismo selvagem e concentrador como poucos, como o nosso, jamais seja alvo de críticas e mudanças. As falsas oposições estão sempre no lugar e escondendo as contradições verdadeiras. É pela mesma razão que as classes média e alta, que formam opinião e influem no espaço público, não veem nenhum problema em que os grandes industriais e financistas brasileiros recebam incentivos do Estado o tempo todo, que o Estado tenha patrocinado diretamente a industrialização, tenha socializado as perdas das finanças e dos bancos nos anos 90 e criado o agronegócio com incentivo financeiro e tecnologia. Mas muitos nessas classes do privilégio ficam escandalizados com o Bolsa Família, que se utiliza de menos de 0,5% do PIB para beneficiar 45 milhões de pessoas. Apenas esses são percebidos como vivendo do Estado “de favor”.

As favelas seriam a face mais concreta dessa diferença de classe? Há uma luta desses moradores pela estima social, para que suas questões ganhem visibilidade na esfera pública. Mas para que haja essa mudança de ordem simbólica não deveriam ocorrer também melhorias distributivas?

A pergunta é muito inteligente porque ela prenuncia algo que poucos percebem. Existem várias iniciativas, algumas delas muito meritórias, de afirmação da cultura dos oprimidos. Esse tema é muitíssimo importante porque, se a direita brasileira domina a academia e a esfera pública com um discurso liberal e conservador, como o que analisamos acima, a nossa esquerda hegemônica é politicamente correta e, na prática, tão ou mais insidiosa e certamente muito mais incompetente que a direita. A atitude politicamente correta tende a idealizar o oprimido, como se uma afirmação abstrata no nível do discurso tivesse qualquer poder de mudar a realidade adversa. Ao contrário, o status quo se regozija com esse tipo de afirmação do oprimido que esconde as marcas indeléveis da humilhação e da miséria. Acho, ao contrário, que a verdade nua e crua é sempre o melhor instrumento, embora ela seja dura de ser ouvida. Quando usei o termo ralé percebi que muitos não gostaram. Isso me deu a certeza de que estava no caminho certo. Eles preferiam que usasse “pobre”, “destituído”, como se a miséria fosse só econômica e até passageira, e não dominasse todas as esferas da vida. Como se não fosse exatamente nas famílias mais miseráveis que predominassem o abuso sexual, o alcoolismo, a desesperança e a falta de afeto e confiança. Reconhecer a verdade ajuda a mostrar a necessidade da mudança. O discurso politicamente correto encobre a verdade em nome de um agrado passageiro e verbal à carente autoestima dos humilhados e oprimidos. Além disso, como a pergunta já intui, o componente material da desigualdade nem sequer é tocado, mostrando o conservadorismo prático deste tipo de discurso de salão.

Como o senhor analisa a inclusão de milhões de brasileiros que acenderam para a classe C — conforme defendido pela presidente Dilma Rousseff durante a campanha? Essa inclusão é somente do ponto de vista do consumo ou podemos falar que se dá também nos níveis culturais e, principalmente, de estima social?

Nós estudamos a classe C em estudo recente, com o Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?, em estudo teórico e empírico realizado em todas as grandes regiões brasileiras e apoiado pela Fapemig, do mesmo modo que o estudo anterior sobre a ralé. O nosso interesse com os dois estudos consecutivos foi estudar as classes populares no Brasil. Nossa tese foi a de que esses setores não podem nem devem ser chamados de “nova classe média”. Essa interpretação triunfalista procura dar a impressão de que estamos nos tornando uma espécie de França e de Alemanha, onde as classes médias são a maioria do povo e os pobres uma pequena parcela marginal. Infelizmente, isso não é verdade de acordo com o que vimos e estudamos. Preferimos chamar essa nova classe social que se forma debaixo de nossos olhos no Brasil de hoje de “nova classe trabalhadora” brasileira. A justificativa dessa denominação é que ela parece se definir como uma classe social com relativa pequena incorporação dos capitais impessoais mais importantes da sociedade moderna, capital econômico e capital cultural, o que explica seu não pertencimento a uma classe média verdadeira, mas, em contrapartida, desenvolvendo disposições para o comportamento que permitem a articulação da tríade disciplina, autocontrole e pensamento prospectivo. Essa tríade motivacional e disposicional conforma a “economia emocional” necessária para o trabalho produtivo e útil no mercado competitivo capitalista, o que separa essa classe do destino dos excluídos brasileiros. Sem socialização anterior de lutas operárias organizadas, disponíveis para aprender todo tipo de trabalho e dispostas a se submeter a praticamente todo tipo de superexploração da mão de obra, essa nova classe social logrou ascender a novos patamares de consumo a custo de extraordinário esforço e sacrifício pessoal. Foram esses brasileiros que construíram o fundamento do período de desenvolvimento econômico que vivenciamos hoje em dia.

O senhor de certa forma coloca em xeque a ideia de autonomia do indivíduo em uma sociedade marcada por uma desigualdade de condições de inserção cultural e econômica. Mas não é exatamente essa autonomia que possibilita aos sujeitos dessa ralé não somente compreender a "violência simbólica", mas principalmente construir alternativas a ela?

As classes mais dominadas socialmente são também as mais dominadas politicamente. Percebemos, no nosso estudo da ralé, que é ela que mais sofre com a ideologia do mérito individual e a que mais se culpa do próprio fracasso, o qual foi socialmente construído pelo abandono de todos nós, os privilegiados. A ralé é fraturada entre os “pobres honestos” e os “pobres delinquentes”, fratura essa que perpassa praticamente todas as famílias da ralé. O delinquente masculino é o bandido e a delinquente feminina é a prostituta. Toda família minimamente estruturada da ralé luta com unhas e dentes para afastar seus filhos deste destino. Isso cinde essa classe e praticamente toda unidade familiar em uma oposição que compromete qualquer esforço de identificação de objetivos e interesses comuns. Desse modo, a ralé não só não possui os pressupostos – que discutimos acima – para incorporação de capital cultural ou conhecimento técnico de ponta, como também não possui solidariedade de classe que permita uma efetiva resistência à sua superexploração como mão de obra barata para serviços pesados e sujos que a classe média não quer fazer. Somos nós, da classe média, que universalizamos nossa percepção do mundo às outras classes. Esse é o fundamento de todo erro e de toda a injustiça. O fato é que criamos uma classe social de tal modo destituída que até sua capacidade de reação política foi comprometida na base.